Dois sistemas, duas filosofias

Quando alguém financia um imóvel ou um carro, está firmando um compromisso de devolver ao banco o capital emprestado — mais os juros pelo uso desse dinheiro. A questão é: em que ordem isso acontece?

É exatamente aí que PRICE e SAC se diferenciam. Um prioriza a previsibilidade. O outro prioriza a redução do saldo devedor. Cada escolha tem consequências diferentes no bolso — e entender isso é o primeiro passo para negociar melhor.

PRICE: parcelas iguais do começo ao fim. Os juros diminuem e a amortização aumenta conforme o tempo passa — mas o valor da parcela não muda. SAC: amortização constante desde o início. Os juros caem a cada mês junto com o saldo devedor, tornando as parcelas progressivamente menores.

A Tabela PRICE: um sistema do século XVIII

O nome "PRICE" vem de Richard Price, economista e filósofo britânico do século XVIII. Em 1771, Price publicou Observations on Reversionary Payments, obra em que formulou os princípios das anuidades — pagamentos periódicos iguais ao longo de um prazo definido.

A ideia central de Price era simples e elegante: dado um capital, uma taxa de juros e um prazo, é possível calcular uma parcela fixa que, ao mesmo tempo, paga os juros do período e devolve uma fração do principal — de tal forma que, ao final do prazo, o saldo seja exatamente zero.

Essa lógica foi incorporada ao crédito imobiliário e ao crédito ao consumo ao longo dos séculos XIX e XX, e chegou ao Brasil como o sistema de amortização padrão dos primeiros financiamentos habitacionais do país.

Fórmula — Tabela PRICE
PMT = PV × i / (1 − (1+i)−n)
  • PMT = parcela fixa mensal
  • PV = valor financiado (presente)
  • i = taxa de juros mensal
  • n = número de parcelas

A mecânica do PRICE

A parcela PRICE é fixa para todo o período, mas internamente sua composição muda a cada mês. Nos primeiros meses, a maior parte da parcela é composta por juros — calculados sobre o saldo devedor ainda alto. Conforme o saldo cai (lentamente), os juros mensais diminuem e a parcela que sobra para amortizar o principal aumenta.

O resultado é uma curva de amortização exponencialmente crescente — e uma curva de juros exponencialmente decrescente. A vantagem é a previsibilidade: quem financia sabe exatamente quanto vai pagar por mês até o final do contrato.

O problema — que levou à criação do SAC décadas depois — é que esse design faz o saldo devedor cair muito devagar no início. Nos primeiros anos de um financiamento longo de PRICE, a amortização real do principal é mínima. O tomador do crédito paga bastante, mas deve quase o mesmo que devia no início.

O Sistema SAC: uma resposta à inflação brasileira

O SAC — Sistema de Amortização Constante — foi desenvolvido no Brasil durante o período de alta inflação das décadas de 1970 e 1980. O contexto importa: num ambiente de inflação elevada e taxas de juros altas, os financiamentos de PRICE se tornavam problemáticos.

Com saldo devedor caindo lentamente, qualquer correção monetária aplicada ao contrato inflava a dívida mais rápido do que as parcelas conseguiam amortizá-la. Surgia o chamado "saldo devedor fantasma" — ao fim de vários anos de pagamento, o mutuário devia mais do que no início.

O SAC foi criado como alternativa: se o problema era o saldo devedor não cair rápido o suficiente, a solução era garantir que uma fração constante e maior do principal fosse devolvida todo mês — independente dos juros.

Fórmula — Sistema SAC
Amort = PV / n
  • Amort = amortização constante mensal
  • Parcelaₖ = Amort + (Saldo Devedor × i)
  • PV = valor financiado
  • n = número de parcelas

A mecânica do SAC

No SAC, a amortização mensal é calculada dividindo o valor financiado pelo número de parcelas. Esse valor é fixo do começo ao fim. O que muda é o componente de juros: calculados sobre o saldo devedor do mês — que cai linearmente a cada pagamento.

Logo, os juros caem a cada mês, e a parcela total (amortização + juros) diminui progressivamente. A 1ª parcela do SAC costuma ser maior do que a do PRICE. Mas a última parcela é significativamente menor — e o custo total do crédito, também.

Quando cada sistema faz sentido

A escolha entre PRICE e SAC não tem resposta universal — depende do momento financeiro de quem está contratando e dos objetivos com o financiamento.

Tabela PRICE

Faz mais sentido quando…

O orçamento mensal é apertado no começo e não suporta a parcela inicial maior do SAC.

Você valoriza previsibilidade — saber exatamente quanto vai pagar todo mês até o fim.

A intenção é não quitar antecipadamente e manter o financiamento pelo prazo completo.

A renda tende a crescer ao longo do tempo, tornando a parcela fixa proporcionalmente mais leve.

Sistema SAC

Faz mais sentido quando…

Você pode absorver a parcela inicial mais alta sem comprometer o orçamento.

O objetivo é pagar menos juros no total ao longo do financiamento.

Há possibilidade de quitação antecipada — o saldo cai mais rápido, então o desconto é maior.

O financiamento é longo (acima de 15–20 anos): a diferença de custo total pode ser expressiva.

💡

Simule os dois cenários com o valor e prazo reais do seu financiamento antes de decidir. A diferença de custo total pode ser de dezenas de milhares de reais — especialmente em financiamentos imobiliários longos. Use a calculadora PRICE x SAC para ver os números do seu caso.

Por que o saldo devedor importa tanto

O saldo devedor é quanto você ainda deve ao banco após cada parcela paga. E é a velocidade com que esse saldo cai que determina quanto você paga de juros ao longo de toda a operação.

No PRICE, o saldo devedor cai de forma côncava — lenta no início e mais rápida no fim. Em um financiamento de 30 anos, após 10 anos de pagamento (um terço do prazo), o saldo devedor ainda representa cerca de 85% do valor original.

No SAC, o saldo cai linearmente. Após 10 anos no mesmo prazo, o saldo já será de apenas 67% do valor original — uma diferença considerável se o imóvel precisar ser vendido, refinanciado ou quitado.

Essa diferença no saldo devedor também impacta quem pretende usar recursos do FGTS para amortização extraordinária: no SAC, cada amortização remove uma fração maior da dívida remanescente do que no PRICE, pelo mesmo valor de FGTS usado.

O banco pode me cobrar mais em PRICE do que o contrato prevê?

Não, desde que o contrato tenha taxa fixa. Se o contrato usar índice de correção (como TR ou IPCA), as parcelas podem variar mesmo no PRICE — mas o sistema de amortização em si permanece o mesmo. O que muda é a base sobre a qual os juros são calculados.

A Caixa Econômica e outros bancos oferecem os dois sistemas?

Em geral, sim. A maioria dos bancos que opera crédito imobiliário oferece os dois sistemas. O SAC é o mais comum no SFH (Sistema Financeiro de Habitação), mas o PRICE também está disponível. Recomenda-se sempre pedir a simulação nos dois formatos antes de assinar.

Existe algum outro sistema de amortização além de PRICE e SAC?

Sim. Outros sistemas menos comuns incluem o SACRE (Sistema de Amortização Crescente), que mistura características do PRICE e do SAC, e o SAM (Sistema de Amortização Misto). Para a grande maioria dos financiamentos de varejo no Brasil, porém, PRICE e SAC são os sistemas disponíveis.

PRICE tem "juros sobre juros"?

Esta é uma discussão jurídica recorrente no Brasil. Tecnicamente, a Tabela PRICE usa capitalização composta — o que por definição matemática envolve reinvestimento de juros. O entendimento predominante nos tribunais, incluindo o STJ, é que a Tabela PRICE é legal e não configura anatocismo em contratos de crédito.

Simule o seu financiamento

Configure o valor, a taxa e o prazo do seu crédito e veja a comparação completa entre PRICE e SAC — com gráfico de evolução e tabela de amortização.

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